quarta-feira, 11 de abril de 2012

Jornalismo "democrático"

Diz respeito à liberdade, a capacidade que cada um tem de escolher como agir. No entanto, a maneira como cada indivíduo entende isso é que estabelece uma problemática. Levando em consideração o fácil, gigantesco e rápido acesso à informação, até que ponto será que tal ação é livre?
Numa análise rápida sobre os tipos de governo e a liberdade de imprensa, nota-se que seu período mais recriminado foi o, praticamente óbvio, Regime Militar. Um pouco antes, com o golpe do Estado Novo, foram criados órgãos que se estenderam até os “anos de chumbo”, fazendo controle exacerbado de conteúdo divulgado. O DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) e o Dops (Departamento de Ordem Política e Social), foram instituídos para censurar toda e qualquer manifestação que, ao menos, insinuasse ser contrária ao regime. Nessa época, a liberdade de imprensa foi extinta, com ela, representações culturais, envolvendo músicas e artistas foram banidos de seu poder da palavra.
Contudo, passada a repressão, o Brasil passa a governar sob as ordens de um regime democrático, que tende a igualar os cidadãos por meio de direitos e deveres comuns a todos. Na teoria, muito apreciativo; na prática, já sabemos a realidade. Porém, apesar dos problemas sociais, como a desigualdade, má distribuição de renda, saúde pública, entre outros, o caráter da informação teve uma significativa mudança. O que antes se liberava quase nada, hoje se divulga quase tudo. Na abrangência da frase, faço a explicação: o silêncio fez-se voz, mas o problema está na falta de medição. Aos poucos, a liberdade sentida pós-autoritarismo perdeu a noção de espaço e tornou-se uma busca incessante pela informação. A gana de mostrar para a população o que acontece no Brasil e no mundo tem a sua valia, mas tomou proporções desmedidas.
A imprensa tem em mãos uma das mais poderosas armas, a palavra. Através dela podem-se projetar perfis, definições, cenários, personalidades, acontecimentos, mas pode-se, também, causar desconfiança, destruir vidas, reputações. Por isso, valida-se o clichê “todo cuidado é pouco”.
Diante disso, nota-se uma mudança no papel da imprensa que, ao invés de denunciar, apurar a informação e divulgar a sociedade, passou também a ser juíza. A função do jornalismo é intermediar a relação acontecimento – população, certo? Certíssimo. Mas será que todo fato é notícia?
Política, economia, meio-ambiente, cultura, educação, polícia, entretenimento, saúde, esporte, são apenas algumas editorias que dividem as pautas dos jornalistas. Vivemos hoje, uma difusão de informação que não acompanha o tempo necessário para sua apuração como pregam as Universidades e os Manuais de Redação. Outro problema é que muitos são pseudo-jornalistas, que utilizam as redes sociais, blogs e o espaço encontrado na internet, em geral, para propagar informações de cunho leviano e duvidoso. Longe de mim – internauta praticante – dizer que a rede é ruim, mas acontece que nela, abriu-se, sim, espaço para o bom jornalismo e divulgação de informação, no entanto com ele, veio quem não sabe usar a ferramenta para o bem. Assim, se com a formação acadêmica já está difícil produzir jornalismo de qualidade, imagine sem.
Além disso, como toda empresa do mundo capitalista, a imprensa pensa no seu bolso que é traduzido no meio como “audiência”. Aqui eis a fórmula que move a ação: Matérias de interesse do público + ampla cobertura da mídia = audiência elevada + alto lucro. É assim que se deixa de pensar eticamente para pensar lucrativamente. Quando o desespero pela superioridade ante a concorrência aflora, a preocupação com os trâmites da apuração ficam um pouco de lado, bem como o foco do bom jornalismo. No lugar deles, emergem cada vez mais escândalos, que estampam as páginas dos jornais.
Crimes hediondos estão no topo da lista. Seu caráter repulsivo chama a atenção da sociedade. Tortura, homicídio, corrupção, extorsão, estupro. Quem duvida da repercussão? Quando um fato desses vem à tona, é dever da imprensa divulgá-lo, desde que seja cautelosa nas informações que expõe acerca do caso, procurando não supervalorizar ou pormenorizar o acontecimento do que ele realmente é, evitando pré-conceitos e julgamentos. E aqui se faz um gancho à invasão de privacidade. Nesse aspecto a imprensa falha.
É bom saber diferenciar o que é “interesse do público” de “interesse público”. O primeiro refere-se às mensagens que o leitor quer receber, aquilo que, sendo matéria fria ou quente, dá audiência. Interesse público vai além disso, é o que de fato influi, implica e carece de reflexão pela sociedade. Assim, se extrapola as barreiras da intimidade de uma pessoa somente quando o assunto tem, de fato, relevância social. Uma pessoa escolhe ser pública, mas tem direito ainda à sua vida privada. Suas atitudes, enquanto profissional, são representadas pelo cargo que ocupa e, portanto, carecem de investigação. Já as ações enquanto pessoa, quando não interferem no comportamento como profissional, devem ser respeitadas, desde que façam jus a esse respeito.
Por fim, liberdade de informação e legítimo direito à intimidade são quesitos conciliáveis. Ser livre para informar não quer dizer que se pode publicar o que quer, é preciso analisar as consequências que tal publicação acarretará para os envolvidos, pois pode ser que seja uma matéria de extremo interesse público que desmascare fatos importantes, mas também, pode ser que se trate de mero circo para se ganhar audiência e dinheiro e disso, a ética já está farta.

2 comentários:

  1. O direito a intimidade pode ser mitigado em face do direito a informação quando se trata de cargos públicos.
    É um pensamento simples, ao ter um cargo de elevada consideração e notória publicidade, alguns aspectos da sua vida intima, possivelmente os deslizes, são de interesse do público.
    Por exemplo, os casos extraconjugais de Bill Clinton tiveram uma grande importância (negativa) em sua carreira política.
    O triste é ver que o povo se importa mais com o comportamento sexual do que com as falhas morais ligadas a corrupção.

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  2. Sim, concordo. Vimos casos como o de Clinton na faculdade. Acredito também que quando uma pessoa assume um cargo público ela permite que sua vida se torne um vidro, no entanto, algumas atitudes pessoais nem sempre interferem no comportamento como profissional. O que desejo deixar claro é que não queremos uma mídia que prive a população de informação, mas sim uma mídia que tenha cautela na hora da divulgação, pois uma palava mal dita pode destruir vidas.

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